ser.
uma mini crônica
do alto da janela de seu pequeno apartamento, susan se perguntava onde havia se deixado.
um casal que lá embaixo passara se beijavam pela primeira vez, uma idosa brincava com seu cachorro pela última vez,
um homem bêbado estava lamentando a perda de sua amada, uma mulher e suas amigas brindavam pelo seu novo emprego,
dois pais ninavam seu bebê, uma mãe solteira chorava ao ver a filha brincando no balanço.
susan se notara irrelevante diante ao mundo, se tornara pequena demais que mal cabia em seu pequeno apartamento.
de repente uma sensação reconfortante fez susan chorar, percebeu que cada um vivia a sua instância como podia, e que talvez a maioria estivesse tão perdida quanto ela.
esboçou um sorriso entre algumas lágrimas e anotou em seu caderno essa sensação.
lembrou do significado da palavra sonder: a percepção profunda e repentina de que cada estranho que passa tem uma vida tão complexa, vívida e única quanto a sua, com suas próprias histórias, relacionamentos e lutas.
susan pensou que talvez se deixara em outros. quando se relacionava susan permitia-se ser e quando partiam ela se permitia não ser.
cada pessoa levava consigo partes de susan. pensou então: cade eu?
mas se deu conta que estava consigo o tempo todo, então o que procurava de fato?
procurava sua fase sonhadora? quando era criança e não tinha preocupações? quando se apaixonou pela primeira vez?
susan buscava sua versão inicial, a qual não se magoou ainda com o mundo, aquela com esperança.
não se enganem, susan sonhava com muitas coisas, mas havia se deixado em algum lugar.
pensou em sua mãe a quem deixou a versão criança, na sua primeira amiga julie a qual deixou sua versão divertida, em sua primeira paixonite marcos o qual partiu seu coração e levou sua versão inteligente, em seu último namorado o qual nem o nome se da o trabalho de lembrar pois a dilacerou completamente e levou consigo a versão que um dia acreditou no amor, lembrou de seu falecido pai a quem levou metade de tudo, lembrou de sua fiel amiga que ainda estava com uma versão feliz.
havia pedaços de susan espalhados no mundo e além nos quais ela sentia falta.
pensou susan que então sentia falta de ser.
mas se confortou em saber que um dia foi.
escreveu susan em seu caderno molhado de lágrimas: pelo menos eu fui.
um medo se instalou em seu coração ao pensar: quem seria então depois de ter sido?
em instantes seguintes lembrou que então estava livre para ser. as possibilidades lhe era infinita.
há sempre uma chance de ser quem quer, pensou susan.



Que texto, Lele! Envolvente e instigante. Uma reflexão um tanto "Clariceana" :) Adorei.
As vezes todos nós somos como a Susan, mas nunca devemos esquecer que sempre SERemos mais do que já fomos, sempre transformaremos os buracos deixados em novos pedaços muito mais completos e recheados do nosso mais puro eu...
Parabéns pelo texto!!!